A outra face de Martinho Lutero: Lutero o Antissemita

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Em 1523, Martinho Lutero escreveu:

“Talvez eu consiga atrair alguns judeus para a fé cristã, pois nossos tolos, os papas, bispos, sofistas e monges até agora os têm tratado tão mal que, se eu fosse judeu e visse esses idiotas cabeças-duras estabelecendo normas e ensinando a religião cristã, eu preferiria ser um porco a ser cristão. Pois esses homens trataram os judeus como cães, e não como seres humanos.”
Martinho Lutero,em “Da que J C nasceu judeu” (1523), in WA 11, 315–360.

Essa declaração foi feita no início da “Reforma Protestante”, quando Lutero ainda era jovem e esperava converter os judeus ao cristianismo.
Nos anos seguintes, entretanto, ele se decepcionou profundamente com o fato de que os Yehudim (judeus) não aceitaram o que ele pregava, o que o levou a escrever palavras de ódio e perseguição.


O Antissemitismo de Lutero

Vinte anos mais tarde, em 1543, Lutero publicou o panfleto “Von den Juden und ihren Lügen” (Sobre os judeus e suas mentiras), onde escreveu:

“Em primeiro lugar, suas sinagogas deveriam ser queimadas;
Em segundo lugar, suas casas demolidas e arrasadas;
Em terceiro, seus livros de oração e o Talmude confiscados;
Em quarto, os rabinos proibidos de ensinar sob pena de morte;
Em quinto, os passaportes e privilégios de viagem vetados;
Em sexto, deveriam ser proibidos de praticar a agiotagem;
Em sétimo, os judeus jovens e fortes deveriam trabalhar para ganhar o pão com o suor do rosto… Portanto, fora com eles, para que nos livremos dessa carga infernal.”
Martinho Lutero, “Von den Juden und ihren Lügen” (1543), WA 53, 417–552.

Lutero chegou a afirmar ainda:

“Se eles [os judeus] pudessem nos matar, o fariam alegremente, e muitas vezes o fazem, principalmente os que praticam medicina.”
Martinho Lutero, “Vom Schem Hamphoras und vom Geschlecht Christi” (1543), WA 53, 479.


Repercussão e Críticas Modernas

A teóloga cristã Margot Käßmann declarou ao Frankfurter Allgemeine Zeitung que:

“Com idade mais avançada, Lutero foi um exemplo assustador do cristianismo antijudaico. As comemorações da Reforma devem lembrar tanto suas conquistas quanto seu lado sombrio.”
Frankfurter Allgemeine Zeitung, 2013.

O historiador holandês Herman Selderhuis, em “Martin Luther: A Spiritual Biography” (Crossway, 2017), explica que Lutero esperava que os judeus se convertessem e, decepcionado com a recusa, passou a hostilizá-los.

O antissemitismo de Lutero não era isolado: Erasmo de Roterdã, Johannes Eck e outros teólogos da época também proferiram ofensas semelhantes contra o judaísmo.


Influência no Nazismo

A “convocação” de Lutero para queimar sinagogas não foi seguida em seu tempo. Mas em 1938, durante a Kristallnacht (“Noite dos Cristais”), os nazistas usaram seus escritos como justificativa teológica.

“Os nazistas citaram Lutero para legitimar o incêndio das sinagogas durante a Noite dos Cristais.”
Deutsche Welle, “Antissemitismo mancha imagem do reformador Martinho Lutero”, 27/05/2013.
[Fonte: https://www.dw.com/pt-br/antissemitismo-mancha-imagem-do-reformador-martinho-lutero/a-16840051%5D

O ideólogo nazista Julius Streicher, em sua defesa no julgamento de Nuremberg, afirmou:

“Nunca disse nada sobre os judeus que Martinho Lutero não tivesse dito 400 anos antes.”
Citado em Dennis Prager & Joseph Telushkin, “Why the Jews?”, Simon & Schuster, 1983.

O próprio Adolf Hitler considerava Lutero uma das três maiores figuras da Alemanha, junto com Frederico, o Grande, e Richard Wagner.

Adolf Hitler, discurso de 1933, citado em William L. Shirer, “Ascensão e Queda do Terceiro Reich”, Simon & Schuster, 1960.


Reflexão Teológica e Histórica

O teólogo Heiko A. Oberman comenta:

“Lutero abriu o caminho para uma teologia de ódio que viria a servir de base moral ao antissemitismo moderno.”
Heiko Oberman, “Lutero: Homem Entre Deus e o Diabo”, Companhia das Letras, 1992.

A historiadora Lyndal Roper, em “Martin Luther: Renegade and Prophet” (Random House, 2016), mostra que as pregações de Lutero formaram um imaginário coletivo de desprezo aos judeus, alimentando um ressentimento que perdurou até o século XX.


Conclusão

Lutero, de reformador a opositor dos judeus, tornou-se um exemplo de como a fé sem humildade pode se tornar arrogância e violência.
Seu legado ambíguo — a redescoberta das Escrituras por um lado e o ódio antijudaico por outro — exige discernimento e honestidade histórica.

A teóloga Käßmann conclui:

“Não podemos celebrar a Reforma sem reconhecer o pecado do antissemitismo de Lutero.”
FAZ, 2013.

Hoje, cabe à humanidade — especialmente aos que estudam as Escrituras — rejeitar o antissemitismo e abraçar o amor ao povo de Israel, como expressão do plano eterno do Eterno, o D’us de Avraham, Yitzchak e Yaakov.


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Sobre Antonio Braga

Antonio Marcio Braga Silva é uma das vozes proeminentes do movimento Bnei Noach no Brasil, atuando com destaque na cidade de Barra dos Coqueiros, no estado de Sergipe. Educador, líder espiritual e entusiasta da ética universal, ele dedica sua vida à promoção dos valores do monoteísmo ético e da sabedoria milenar da Torá para os não judeus que buscam servir ao Criador segundo os princípios das Sete Leis de Noé. Como professor de Halachá Noachida, Antonio Marcio desenvolve um trabalho didático voltado para a formação de lideranças e o fortalecimento de comunidades alinhadas com os preceitos da Tradição de Israel, respeitando as particularidades e o papel espiritual dos justos entre as nações. Ele atua com firmeza e sensibilidade, trazendo clareza e profundidade aos temas que aborda, tornando acessível ao público leigo assuntos complexos da Lei e da espiritualidade judaica. Sua atuação vai além das aulas: Antonio Marcio tem contribuído significativamente para o crescimento da comunidade local, organizando encontros semanais, estudos bíblicos, ciclos de oração baseados no Sidur Bnei Noach, e incentivando a solidariedade e o senso de missão entre os participantes. Seu trabalho é pautado pela seriedade, comprometimento e por uma devoção sincera ao serviço a D’us. Em sua vida pessoal, Antonio Marcio é pai dedicado de dois filhos marido de Fabiane Ribeiro, com quem compartilha o propósito de construir uma família alicerçada nos valores eternos da Torá. Sua jornada é marcada por coragem, perseverança e pela fé inabalável na Providência Divina. Ao unir conhecimento, liderança e espiritualidade, Antonio Marcio Braga Silva se destaca como um dos pilares do movimento Bnei Noach em território brasileiro, inspirando outros a seguir o caminho da retidão, da justiça e do reconhecimento do Eterno como único Criador e Rei do Universo.

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