Arquivo da tag: Parashat Semanal

A verdadeira riqueza e a justiça da caridade – uma reflexão para nós, Bnei Noach

3–4 minutos

É bem conhecido como o excesso de riqueza pode corromper uma pessoa. Um ditado chassídico, com um toque de humor, ensina:
“Três coisas certamente funcionam, se forem em quantidade suficiente: vinho, riqueza e os ensinamentos do chassidismo. O vinho deve embriagar. Não embriagou? Então, não bebeu o suficiente. A riqueza deve endurecer o homem. Não o tornou arrogante? Então, não é riqueza suficiente. Os ensinamentos do chassidismo devem elevar a alma. Não a elevou? É sinal de que não estudou o suficiente.”

Este ditado brinca com realidades sérias: tanto o vinho quanto a riqueza têm efeitos claros sobre a pessoa, e o estudo espiritual também deve ter efeitos visíveis. É raro encontrar alguém que tenha alcançado grande riqueza sem, em algum grau, se tornar insensível às necessidades dos outros, buscando honrarias que talvez não lhe sejam devidas.

Mas, afinal, o que é uma verdadeira riqueza? O dinheiro, por si só, é um bem frágil: pode ser perdido, desvalorizado ou tomado. A posse de empresas ou ações pode parecer estável, mas está sempre à mercê das mudanças do mercado. O único bem verdadeiramente estável é a terra — ela não desaparece, não pode ser roubada, não se deteriora com o tempo, e tende a se valorizar com o crescimento populacional. Quem tem terra suficiente pode, com segurança, se considerar rico… talvez até “rico o suficiente para se corromper”.

Na Torá, na porção de Be’ar (Vayikrá/Levítico 25:35), encontramos o ensinamento:
“Se teu irmão empobrecer e vacilar em sua mão, então tu o sustentarás; seja ele estrangeiro ou residente, para que viva contigo.”

Segundo Maimônides, em seu Mishnê Torá, a tzedaká (justiça/caridade) é um dos mandamentos mais elevados, pois expressa o caráter dos justos que seguem o caminho de Avraham. É por meio da tzedaká que a fé se firma no mundo. Nunca alguém ficou mais pobre por doar. Nunca houve mal algum causado pela caridade. Pelo contrário, quem tem compaixão dos outros, recebe compaixão dos Céus.

Maimônides também ensina que o grau mais elevado de caridade não é simplesmente dar dinheiro, mas ajudar a pessoa a se reerguer: oferecendo um presente, um empréstimo, uma oportunidade de trabalho ou sociedade, para que ela possa se sustentar por conta própria. Isso cumpre o mandamento de “sustentá-lo para que viva contigo”.

E aqui há um ponto importante para os Bnei Noach: a Torá fala não apenas de ajudar ao companheiro judeu, mas também ao “estrangeiro e residente” — que, segundo o Talmud, inclui o Ger Toshav, ou seja, o não judeu que abandonou a idolatria e aceita as leis universais dadas por Deus a Noach e seus descendentes. A Torá chama esse indivíduo de “irmão”.

Assim, há um chamado claro para que judeus e Bnei Noach vejam-se como parceiros na humanidade e na missão espiritual que Deus confiou ao mundo. Ambos devem cultivar a compaixão e o senso de justiça.

Diferente de muitas religiões, onde o ato de dar aos pobres é visto como “esmola” ou “caridade”, no judaísmo esse ato se chama tzedaká, que significa literalmente justiça. Isso indica que não é um favor, mas uma obrigação moral: o que possuímos não é só para nós, mas para cumprir a vontade divina no mundo — dividir, apoiar, elevar.

Os judeus têm a tradição de manter uma caixa de caridade — a kupat tzedaká — em casa. Antes da oração, antes de viagens ou em momentos especiais, uma moeda é colocada ali, expressando gratidão e responsabilidade. Muitos Bnei Noach também adotam esse costume com reverência, como expressão de sua ligação com os valores universais da Torá.

Em resumo, a riqueza verdadeira está na capacidade de transformar o que temos em bênção para os outros. Quando usamos nossos recursos para elevar o próximo, nos tornamos verdadeiros parceiros de Deus na manutenção do mundo.